Com peso, experimentação e uma produção ambiciosa, a banda gaúcha transforma seu novo trabalho em uma síntese de tudo o que construiu até aqui — e aponta para novos caminhos.
Há discos que simplesmente cumprem aquilo que se propõem a fazer. Outros conseguem ir além e, a cada audição, revelam novas camadas. O novo álbum homônimo da It’s All Red, pertence à segunda categoria. Mais do que reafirmar a identidade construída pela banda ao longo de sua trajetória, o trabalho amplia consideravelmente seu universo sonoro e surge como um dos lançamentos de maior destaque do ano.
A banda mantém intactos alguns de seus elementos mais característicos: guitarras afiadas, bateria pulsante e energética, vocais que transitam entre momentos melódicos e explosões de agressividade e, claro, breakdowns capazes de provocar imediatamente aquele inevitável movimento de cabeça. Mas há algo diferente neste disco. A It’s All Red parece interessada em descobrir até onde pode levar sua própria sonoridade.
Tambores, shakers, efeitos sonoros, teclados e diferentes texturas aparecem ao longo das faixas, construindo uma experiência que vai além do metalcore convencional. São elementos que não estão ali apenas como adornos, mas integrados às composições e à atmosfera de cada música.
E talvez nenhuma faixa deixe isso tão evidente quanto “Naad”, responsável por abrir o álbum.
A introdução é uma escolha inesperada. Em vez de começar imediatamente com a tradicional parede de guitarras, a banda apresenta uma composição marcada por um sitar e por uma atmosfera que remete à música indiana. É como se “Naad” preparasse o ouvinte para aquilo que virá logo depois: a porrada.
A escolha, porém, não é meramente estética. A composição foi construída a partir de conceitos e tradições da música indiana, e não simplesmente a partir de um riff ocidental ao qual posteriormente foi acrescentado um sitar. Esse detalhe diz muito sobre o nível de pesquisa, estudo e dedicação envolvidos na produção do álbum. A It’s All Red não parece interessada apenas em soar diferente; existe um esforço genuíno em compreender e incorporar novas referências à sua música.
Essa preocupação com atmosfera aparece em diversos momentos do disco. Os teclados, por exemplo, permeiam as composições e adicionam uma dimensão cinematográfica ao trabalho. Os chamados “vocais de galera” também aparecem com frequência e, curiosamente, evocam uma sensação quase épica, como se algumas passagens pudessem facilmente fazer parte da trilha sonora de um filme ou série de fantasia.
Mas se existe algo que continua sendo uma marca registrada da It’s All Red são os breakdowns. E aqui eles ganham ainda mais força. Pesados, precisos e colocados em momentos estratégicos, tornam difícil permanecer indiferente diante das músicas.
A força do álbum, entretanto, não está apenas nos instrumentos.
As letras também ocupam um espaço importante no trabalho. Em “Femme”, uma das faixas que mais se destacam no disco, a banda aborda a violência contra as mulheres — um tema urgente e necessário em uma sociedade na qual esse tipo de violência continua sendo uma realidade. A música ganha ainda mais dimensão com um videoclipe concebido como uma grande produção audiovisual, envolvendo uma equipe numerosa e uma proposta visual à altura da mensagem.
“Macau” apresenta outra particularidade interessante. A faixa nasceu durante as próprias sessões de gravação, algo que evidencia o entrosamento e o momento criativo vivido pela banda no estúdio. O fato de ser cantada em português também acrescenta uma característica particular à composição e reforça a variedade encontrada no álbum.
Os refrãos melódicos, outra característica recorrente da It’s All Red, continuam presentes. E funcionam justamente por estabelecerem um contraponto eficiente ao peso das guitarras e dos vocais agressivos. São melodias que permanecem na cabeça depois de poucas audições, ajudando a criar uma dinâmica bastante interessante entre brutalidade e acessibilidade.
Entre todas as faixas, porém, “Hitting a Bullet” é, pelo menos para este ouvinte, o grande destaque. A música parece condensar praticamente tudo aquilo que o álbum apresenta de melhor: peso, melodias, guitarras brilhantes, efeitos e uma construção dinâmica que surpreende. O que mais chama atenção é justamente a mudança de clima no decorrer da faixa, criando uma quebra de expectativa que funciona muito bem.
E então chegamos ao encerramento.
“Pertencimento Pt. 1” e “Pertencimento Pt. 2”, com a participação especial de Humberto Gessinger, são responsáveis por fechar o disco de uma maneira que poderia parecer improvável no papel. Afinal, unir o peso e a experimentação da It’s All Red à identidade musical de Gessinger é uma combinação que, à primeira vista, poderia seguir caminhos bastante distintos.
Na prática, funciona — e funciona muito bem.
A participação não soa como um simples recurso para criar impacto ou como uma colaboração colocada artificialmente dentro do álbum. Ela faz parte da proposta do trabalho e ajuda a transformar as duas faixas de encerramento em uma espécie de síntese do espírito do disco: uma banda que conhece profundamente sua própria identidade, mas não parece disposta a ficar presa a ela.
É justamente essa sensação que permanece quando o álbum termina. Existe uma clara percepção de cuidado, pesquisa e profissionalismo em cada escolha. A produção é ambiciosa, mas nunca parece gratuita. Os elementos adicionais servem às músicas e ajudam a construir uma obra mais ampla, mais rica e, sobretudo, mais pessoal.
O novo It’s All Red é um disco que pede mais de uma audição. E essa talvez seja uma das suas maiores qualidades. A cada nova passagem surgem detalhes que haviam ficado escondidos anteriormente — um efeito, uma camada de teclado, uma mudança de dinâmica, uma textura ou simplesmente uma escolha de arranjo que ganha outro significado quando ouvida novamente.
É difícil não perceber o carinho colocado neste trabalho.
Para este que vos escreve, o álbum já chega com status de candidato a clássico dentro da trajetória da banda e rapidamente se tornou um daqueles discos que voltam para o play repetidas vezes. Mas, acima de qualquer impressão individual, existe algo mais importante: a It’s All Red entregou um trabalho que merece ser ouvido com atenção.
Ouça o disco, descubra seus detalhes e tire suas próprias conclusões.
Por aqui, o play já foi apertado novamente.
